domingo, 31 de outubro de 2010

Dancei

era quase feriado 
encontro marcado
à tarde no Odeon
fome querendo prato
eu cozinhando rápido
tempo controlado
era quase pressa
e de repente no rádio
aquela música começa
larguei tudo em espera
flutuei para a sala
aumentei o som
era quase festa
pés descalços
saia girando
cabelos voando
sorriso cantando
corpo tão leve
era quase breve
se não fosse eterna
a magia de dançar

*

sábado, 30 de outubro de 2010

Canto

o céu todo nublado
e de um canto invisível
a cigarra canta
tom de perseverança
som de esperança
brilhará o sol?
só saberemos amanhã

por enquanto a missão
é cantar a melodia
sobre o vento nas folhas
e com alguma acrobacia
equilibrar-se nas escolhas

é o que permite cada dia
cantar a própria vida
como notas de partituras
ora coro, ora solistas
sem pensar na previsão
do próximo amanhecer

o sol voltará?
nem a cigarra saberá
hoje só podemos cantar

sábado, 23 de outubro de 2010

Pimenta













sem muita magia
calma eu seguia
paz de incenso e chá
minhas noites tranquilas
um súbito luar
e li suas linhas
despertei as memórias
das minhas esquivas
dos desejos guardados
das vontades esquecidas
me senti tocada pela poesia
outra pele a roçar na minha
língua criativa na minha saliva
quis ser mais bela, mais intensa 
ser lua, paz e pimenta
ser musa da sua letra 



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Leve



.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Perigo

















tem palavra que vem pensada
e tem poema que às vezes escapa
no meio do dia, da noite, do nada
sem aviso e sem alarde
invade

o poema sabe
a linguagem dos sonhos
os segredos dos magos
os ingredientes sagrados
da essência da alquimia

o poema conhece
os ponteiros do tempo
os mistérios do acaso
o avesso do outro lado
do disfarce da fantasia

seria mais discreta
se ficasse secreta
mas a palavra fugitiva
é sempre inquieta
e ousada me denuncia:
tua presença me intriga
minha poesia me entrega

.

Em busca da saída

 
.

Liberdade













as grades são imaginárias
sombras do que foge ao jogo limpo
e eu tão cansada de tudo isso
bambu enverga, não quebra
e suas folhas respiram
na mira de uma estratégia
saber qual a medida
onde os extremos
estabelecem limites
o tempo não passa
e eu procuro pela casa
as minhas chaves imaginárias
meus rabiscos, minhas viagens
minhas saídas libertárias

.

domingo, 17 de outubro de 2010

Incógnita

prossigo sem saber
que caixa será ofertada
ao toque dos meus dedos
será pandora, presente de grego,
cavalo de tróia?
será surpresa, quase um segredo,
uma nova história?
o que me resta nessa véspera
além de incensos e aromatizante
para harmonizar meus sentidos
e conduzí-los ao presente instante
prossigo sem saber
que desenho haverá no meu semblante

Diretriz

Coração
Metáfora
Símbolo
No centro
Um chakra
O caminho

.

Arco-íris

Das pequenas coisas práticas
às grandes e mágicas
Da sensação de pressa
à pura contemplação
Da poeira das ruas
à maciez dos lençóis
Do vermelho intenso
à paz do violeta
Experimentamos cores
no arco-íris dos dias
e precisamos da transparência
da nossa alma límpida
para pincelar a cor esmaecida
e imaginar a tonalidade escondida

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Aparecida



No riacho em São Paulo
Nos joelhos ralados
dos pedidos atendidos
Nos tecidos e adesivos
Nas tatuagens e imagens
Nos pés dos peregrinos
No olhar dos pequenos
a fé que se ensina
como herança precisa
Na chama de todas as velas
o fogo de algum desejo
sobre curas e bravuras
derrete medos e apegos
em sinuosos desenhos
Nos cânticos em coro
Destinos em encontro
Acordes de reza e gratidão
Em todos os lugares a mãe divina
Aqui atende pelo nome de Aparecida


Loba

há o sagrado no humano
e por isso tanto me espanta
os que corrompem essa dádiva
a mentira é um descaso com a palavra
o cinismo, mal traçando um sorriso,
ofende o que seria um abrigo
a maldade desviando o olhar
mirando na alegria para matar
ah, meu cansaço pede distância
dessa gente equivocada
embriagada de falsos poderes
ah, minha alma quer elegância
boas vibrações que emanam
das pessoas, onde se encontram?
por onde anda minha matilha?
em que esconderijos da vida?
justo agora que pareço sozinha
vou perambular pela floresta
até descansar numa clareira
                                                 e de tanto sentir a natureza
                                                 verei os olhos dos meus lobos
                                                 brilhando ao meu encontro
                                                 e sob o luar do mundo
                                                 uivaremos todos juntos

Brisa


Muito do estranho da vida
É o que escapa do planejado
Esforço que parece em vão
Nenhum vislumbre de significado
Desafio fio de navalha afiado
Ameaçando a minha esperança
Prossigo, insisto, respiro
Confiança é crer sem ver
com os olhos do óbvio
E tudo que li sobre o cosmos?
As possibilidades infinitas
As coincidências vividas
Ponte para o outro lado
Do rio, da floresta, da vida
Ainda invisível sob a neblina
Não podem ter essas linhas
Iludido minhas percepções
Haverá algum momento
Em que o quebra-cabeça
Formará um desenho
E eu compreenderei o tempo
Deitada na minha rede
No ritmo da brisa do alento

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Toque de fada

quantas vezes tudo parece bem
e a vida toma suas medidas 
para bagunçar tudo
lugares, pessoas, rotinas
sabores, roupas, perfumes
afazeres, prazeres, texturas
adaptem-se os sentidos
atualizem-se os sonhos
quem sabe já havia o desejo
e a vida apenas percebeu
e naturalmente intercedeu
com o toque da varinha
no movimento mágico
para a fada bailarina
devolver o brilho necessário
e voar 





domingo, 3 de outubro de 2010

Aos fotógrafos












Que seus dias sejam mais claros
E suas noites mais estreladas
Que entre solares e lunares
Aproximem-se essência e imagens

Que o virtual absorva o real
Para depois devolvê-lo
Recortado, transformado
Interpretado e libertado
Como só livres podem ser
As imagens que circulam
Questionam e inspiram
O olhar de quem escolher

Que o exercício dos seus dons
Seja uma fonte de alegria
Que sua alma possa florescer
E mergulhar a cada dia
Na luz que não gera sombra
Na paz que protege do caos
No amor que supera dúvidas
E pinta o céu de laranja e lilás
Para olharmos aprendizes
As transformações e matizes
Do breu estrelado ao azul claro

Que o passar diário do sol
Indique o melhor caminho
Para seu olhar nos presentear
Onde você cante sua música
E ouça sua risada
Em harmonia com o ritmo
Único e preciso
Do seu coração

sábado, 2 de outubro de 2010

Meditação

reflexão                                   aprendizado
lição                                       necessário
nada em vão                            dor sem repetição


calendário                                   tudo claro
tempo da renovação                    paz da compreensão

Futuro

há algo desconexo 
noites sem sono
horários trocados 
há sempre algo liberto
onde mora um mistério 
o meu dia seguinte
nunca foi tão incerto
é isso justamente
o dourado da fita
do laço do presente
do futuro que se esquiva
e com o tempo brinca
escondendo sua face
atrás dos troncos de árvore
nessa floresta onde caminho,
me alimento e me abrigo
os primeiros raios de sol
descem diagonais na mata
iluminam meus passos 
e eu não preciso de estrada

Cafuné


A imagem já é poesia
Surpresa minha
Ao virar uma esquina
No sul da Índia

De tão grande elefante
O mais leve cafuné
Os olhos nos iludem
A vida brinca como quer

Prazer em te ler

devoro teus poemas com velocidade
admiro as palavras que nunca uso
os sentimentos que nunca ouso
as confissões que nunca digo
os desejos que nunca arrisco
há algo disso tudo em mim
mas sou ainda aprendiz

devoro tanto que esqueço do dia
ausência de rima não evita poesia
devoro tanto que vejo a tua janela
e sinto a fagulha que escolhe as letras
os minutos passam e meus olhos passeiam
felizes porque há outro e mais outro poema
devoro secreta paradoxos e contradições
minha espionagem das tuas paixões
tal como um laboratório de fotografia
sob a luz vermelha devoro tua poesia

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Beijo de borboleta









As flores esperam as borboletas
E, ao mesmo tempo, como mágica
As borboletas procuram por elas
É questão de tempo ou pura dádiva
Sob única e definitiva condição:
Manter a exuberância de suas formas
E suas cores em sedutora vibração
As borboletas voando em lindas órbitas
As flores brilhando em pura meditação
Felizes com os ciclos do destino
Tecendo linhas de um ímã invisível
Com a sabedoria do vislumbre tranquilo
Do encontro de pétalas e asas possível