quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Beijo













o acaso me lembrou daquele beijo
distante, esquecido no tempo
e criado por outro acaso
de ali nos encontrarmos
na rua escura até a livraria
bebendo entre livros de poesia
horas e horas descobrindo o outro
palavras e lábios com o mesmo gosto
e nunca mais nos encontramos

até que o novo acaso veio
e me lembrou daquele beijo
como sinal de um bom roteiro
talvez a primeira pincelada
de uma tela a ser preenchida
pode ser isso ou quase nada
assim é a arte, assim a vida

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Hora do almoço

era quase uma hora
ou um pouco mais
o desenho do sol nas ruas
determinando o meu rumo
até um pequeno restaurante
de rústico bambu, vegetariano
dali levei a música suave e um chá
nas mãos equilibrando
caminhando
até um refúgio predileto
uma livraria ali perto
permitindo o acaso no olhar
versos de Quintana
trechos de Garcia Márquez
abrindo as folhas assim
ali decorei palavras e saí
para voltar ao trabalho, eu juro
mas depois de alguns passos
outra porta me convidou
pedra de cânfora queimando
violão e vozes orando
no ritual milenar
de uma simples igreja
com todas as luzes acesas
ofuscando os dogmas
ali a devoção me toca
até fechar os olhos
e sair
de novo para as tarefas
pelo mesmo caminho do sol
onde as sombras mudaram
se transformaram
em quase uma hora
ou um pouco mais


*

domingo, 18 de setembro de 2011

Astromélias


há muito já seduzida
pelas formas e cores
pela promessa do cheio
no vazio do meu vaso
há muito desejava
essas flores em casa
esse nome que me diverte
pois aqui as astromélias
brancas e vermelhas
astronautas e amélias
viagens e atmosferas

como dançar na lua                           
sob a gravidade do cotidiano?
como fazer eternas
as pétalas das astromélias?

na água transparente
entre os caules verdes
os átomos do mistério
do tempo sem peso
da leveza sem promessas
astromélias
tragam-me outras primaveras

*

Alternâncias

pairam pela casa
os excessos e faltas
que em outras searas
usam belas máscaras

mas aqui vestidas de óbvio
me espreitam as lacunas
e os amontoados
exigindo atitudes
e a primeira é discernir
dos meus excessos
de quais preciso me livrar
e dos abismos
quais preencher
se é na busca do equilíbrio
que se tece o fio fino
para atravessar os dias

relaxo na rede do inevitável
pensando numa estratégia
para alternar os temas
habitantes de picos e vales
pois que alguns ali se demoram
e eu quero mais movimento
outras necessidades e conquistas
eu só quero mais vida


*

esse longo e repentino
deparar-se comigo
pelo espelho sozinho
reflexo de todos os ângulos

onde posso esquivar meu olhar?
nada me escapa
nada passa
pelas paredes de fotos
de memórias
decifrando desejos
apontando projetos
duvidando futuros
assim, no extremo só
tudo é exacerbado
assim só eu
assim sou eu
nessa madrugada
com poucas estrelas
ou persianas demais


*