sábado, 12 de novembro de 2011

Dois cafés

enfim, chego de um dia longo
e vasto de tanto mais
do que minhas intenções iniciais
anunciavam ao amanhecer,
quando deixei meus travesseiros,
lençóis de orquídeas e meus cheiros
e abri os olhos lentamente
diante das persianas clareando,
ainda buscando o sabor dos sonhos

enfim, as intenções primeiras
se anunciavam como guia
e só essas eram bem-vindas
(acordei avessa a surpresas)
mas há intempéries na natureza

longas horas numa sala fechada
aulas, aulas e mais aulas
meu cansaço é também espelho
a esperança é também reflexo
e os opostos ficam intensificados:
no primeiro café de intervalo,
a mandala de uma camisa
inspirou a súbita e feliz conversa
sobre Bhagavad Gita e Índia
e horas depois,
longe dos olhos de Krishna,
derramei café em alguém
que veio rápido, esbarrou em mim
(e justo alguém que não aprecio)

voltei às apostilas
com o doce e o amargo do inusitado

que as tintas do efêmero aliviem as dualidades:
amanhã quero um dia mais calmo
nada de traços expressionistas
quero preto, branco e cinzas
no meu domingo, uma fotografia


*

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